Habitabilidade

O domus é um espaço e um tempo comuns, um dos aspectos que constitui o lugar. Um espaço-tempo doméstico é compartilhado, é “onde cada um encontra seu lugar e seu nome”, como diz Nelosn Brissac Peixoto. A cidade apresenta outra regulagem do espaço e do tempo, sob o ritmo dos fluxos, da circulação e da informação.
O espaço doméstico é o da casa, que não se refere apenas a um edifício destinado à habitação, uma morada e suas dependências. O termo comporta toda uma dimensão diferencial e simbólica. O viver com (conviver), o comer na mesma mesa, para os gregos antigos, ocorria na oiko (casa) dirigida por regras, normas da casa, do lugar ‑ nomia. Oikós (de onde deriva economia) significa a “arte de administrar a casa”, as propriedades de terra, os recursos materiais, e também as relações matrimoniais, paternas, maternas. Com o tempo, surge toda uma “engenharia da casa”: uma “parafernália” constituída de objetos úteis à vida da casa, (LIRA, s. d.). Ou seja, a vida dos lugares depende além do agenciamento do espaço, de uma série de gestões, dispositivos, instrumentos móveis e imóveis, úteis e inúteis que lhe conferem habitabilidade, que o projeto dos espaços tem que considerar.
Segundo Carlos Antonio Brandão,
“A habitabilidade vem de habere, do ter e do ter-se no mundo, de tomar posse dele e de si: uma das formas do ser humano constituir sua posse de si e do mundo é edificando o seu habitat, no qual define e funda seus hábitos, sua habitualidade, e dá-lhes lugar, ou seja, cria uma morada, abriga os seus costumes, more. A habitabilidade de um espaço cria o bem-estar quando se conforma um meio através do qual o habitante se conquista, se identifica, se vê abrigado em seus costumes, seus hábitos, e encontra no habitat um modo de se ter, de encontrar-se depois de girar o mundo, a cidade ou o dia de trabalho.
O bem-estar varia no transcurso do tempo e com a variação dos costumes: o bem estar na história (...). Esta divergência de bem-estares conforme as diferenças culturais gira em torno de um único núcleo: produzir a habitabilidade e o sentimento do habitar nos habitantes do espaço. Assim, se o bem-estar diverge entre vários tempos e culturas, (...) também serão diversos os espaços que o produzem, mas todos se orientando para um único projeto: produzir a efetiva habitação do sujeito, e não seu mero alojamento ou abrigo. Por isso, a habitabilidade e o bem-estar vão além da constituição da forma que abriga o hábito cotidiano, a habitudine, e requerem o decoro, os objetos que me confirmam, que me assentam em mim mesmo, os objetos próprios ao lugar e a mim e que dão-me um pouco de certeza da história que sou. O decoro não é decoração e o ornamento não é ornamentação, mas os instrumentos visíveis que fazem com que me encontre, que esteja num lugar este alguém que sou eu, com desejos e possibilidades a serem realizadas. Quando acontece este eu estou, este eu sou e este posso ser eu, minhas circunstâncias e minhas possibilidades o bem-estar vem e me põe em repouso ou em movimento. Quando, ao contrário, eu vejo o indecoroso à minha volta, este “não-eu” que me contradiz e me faz sentir alienado e não estando em um lugar, vem a insatisfação, o mal-estar no espaço e o estar mal em mim e comigo.”
Os objetos que criam o lugar são imprescindíveis à habitabilidade. Objeto (do latim objectus,us 'ação de pôr diante) significa interposição, obstáculo, barreira; objeto que se apresenta aos olhos'. (HOUAISS).
Os objetos situam-se no espaço, que por sua vez “não é nem um objeto exterior nem uma vivência interior” ao homem, como diz Heiddeger. Para ele, homem e espaço são termos que dizem respeito ao modo de habitar. A linguagem é o modo como o homem exterioriza e converte em objetos da consciência, as coisas, o espaço e o seu modo de habitar o mundo.
Hannah Arendt distingue labor, trabalho e ação. Diz que é o trabalho que produz o mundo artificial das coisas, que sua condição humana é a “mundanidade”. Arendt diz que os homens são condicionados (1995):
“tudo aquilo com o qual eles entram em contato torna-se uma condição de sua existência (...). Tudo que adentra o mundo humano, ou para ele é trazido pelo esforço humano, torna-se parte da condição humana. O impacto da realidade do mundo sobre a existência humana é sentido e recebido como força condicionante. A objetividade do mundo – o seu caráter de coisa ou objeto – e a condição humana complementam-se uma á outra; por ser uma existência condicionada, a existência humana seria impossível sem as coisas (...)”.
Referências:
ARENDT, Hannah. A condição humana. Rio de Janeiro: Forense, 1989.
BRANDÃO, Antonio Carlos. Habitabilidade e Bem Estar. Interpretar Arquitetura. UFMG.
LIRA, José tavares Correia de.  Sobre o conceito de casa ou como ver o objeto por excelência do arquiteto sem sair de casa. São Paulo. Revista Caramelo, FAUUSP, N. 5. s. d.
PEIXOTO, Nelson Brissac. Paisagens urbanas. São Paulo: SENAC: Marca D’Água, 1996.

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